O interesse do cinema brasileiro pela vida na periferia e na favela nos grandes centros urbanos já produziu filmes em número suficiente para formar um gênero. A maior parte, infelizmente, abusa dos clichês e da artificialidade. “Bróder” integra o pequeno time das obras com algo original a dizer e a proporcionar.
O filme de Jeferson De se passa no Capão Redondo, bairro-cidade na zona sul de São Paulo, famoso pelos baixos números nas planilhas de desenvolvimento social e elevados resultados em matéria de violência.
Mas o bairro é, de fato, cenário, e não tema, do filme. O seu interesse é o reencontro de três amigos de infância, cujas trajetórias diferentes são confrontadas durante uma feijoada na casa da mãe do único que ainda mora no Capão.
Trata-se de Macu (Caio Blat), que está enredado, por causa de dívidas, com uma organização criminosa. Jaiminho (Jonathan Haagensen) é jogador de futebol, craque na Espanha. E Pibe (Silvio Guindane) é trabalhador, mora no Centro com a mulher e o filho recém-nascido.
Uma tensão permanente domina a cena, tanto nas brincadeiras quanto nas discussões dos três, e também nas relações dos personagens principais com os secundários, cujas histórias dariam outros filmes.
Há Francisco (Ailton Graça), o padrasto negro de Macu; Napão (Du Bronks), um jovem já envolvido com o crime, cujo pai é pastor; Elaine (Cíntia Rosa), meia-irmã de Macu, que está grávida de Jaiminho; e muitos outros.
O roteiro de Jeferson De e Newton Cannito, com a colaboração de Ferréz, costura estas histórias com habilidade, sem apelação. Já a câmera passeia naturalmente pelos diversos ambientes do Capão, em especial a casa simples, mas arrumada de Sonia (Cássia Kiss), mãe de Macu, como se conhecesse bem o lugar, sem se espantar com nada.
É um filme, como já foi observado, sobre a amizade, o afeto. Deita um olhar generoso e compreensivo sobre todos os seus personagens, sem cobrar nada deles, mas também sem glamorizá-los – uma receita honesta, que resulta num filme de ótima qualidade. Mas, espero estar errado, difícil de agradar nas bilheterias.

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